Julho 17, 2009

sem ti (tulo)

Me dói,

como pedrada,

a vida que levarás

sem que dela eu participe.



Como um filho que de casa parte.



Me dói mais

a vida que tenho pela frente...

com todas as suas possibilidades

com todas as suas liberdades

sem que dela também participes.



Como uma queimadura que arde.



Parte logo,

parte de uma vez...



Sejamos, rapidamente,

espectadores um do outro

à distância.

Sejamos logo

qualquer coisa diferente disso

do que fere

e do que é ferido

sejamos logo a mudança.





Pena

que nada mais será

como poderia ser

Pena

que não é mais você

Pena

agora que tudo é tão novo

que agora

seja tudo tão abismo.





Como diante do paraíso

perder a visão, o riso e o juízo.











Laura Limp

Ainda assim

Teu mundo inteiro
até aquele que desconheces como teu
está jogado, displicentemente
por todos os cantos de minha casa.
Ainda ocupa,
todos os espaços de meu corpo.
Ainda perturba,
as esquinas obscuras de minha alma.

Porque nunca fostes periférico, como pensas
mas central e abrangente.
Como um horizonte de céu limpo
à minha frente e dentro de mim.

Vital
como cada orgão ou membro meu
que agora, ausente,
me obriga a aprender a viver sem
e continuar, ainda assim, a ser eu.



Laura Limp

Ou seria só no nosso caso?

Não recomendo viver uma história de amor.
Os anos passam, esfumaçando-se
(ou seria só no nosso caso?)
e o fim é, inevitavelmente, doloroso
na proporção exata do tempo
que esta história levou pra ser vivida
e na medida exata de tudo
que é imprevisível e grandioso.

...ou seria só no nosso caso?



Laura Limp

Inconclusões II

"Basta encostar teus pés nos meus
para todo o meu orgulho dizer: Adeus. "



Laura Limp

Poucas coisas III

Poucas coisas são
tão tranquilizadoras
aconchegantes
e de palpável segurança
quanto a visão
de nossa própria cama

(tão objeto concreto
quanto metáfora
de preferência
metáfora pré desarrumada
concretamente macia)

quando só o que se quer é deitar
esvair-se do mundo
e dos seus graves problemas
esquecer-se dos seus e de si
fechar os olhos despudoradamente
e dormir
desesperadamente
e dormir
sem hora para acordar
sem que sequer
existam horas
ou o remoto significado
da palavra
despertar.



Laura Limp

Poucas coisas II

Poucas coisas são
tão felizes
quanto o sorriso dos filhos

braços miúdos extendidos
pro reencontro

sem perguntas
e sem grandes questões

só este sorriso
eternamente claro

só este amor
explicitamente raro.



Laura Limp

Poucas coisas I

Poucas coisas são
tão tristes
quanto esses dois vasos
de cactus
na janela
numa imobilidade digna
de dois seres humanos
que já não enxergam a saída
mas assistem, sim
impassíveis
e solenes
ao cair da tarde
em copacabana

Prédio mirando prédio
concreto vidro e espinho
através de uma inútil
rede de proteção.



Laura Limp

Fevereiro 07, 2009

EM FRENTE


PERGUNTOU-SE O QUÊ HAVIA DE ERRADO MAS NADA HAVIA ALI QUE NÃO FOSSE VERDADE EMBORA TODA VERDADE POSSA SER DILUÍDA NO ÁLCOOL NEM TODO ÁLCOOL DILUIRIA AQUELA REALIDADE. PASSOU-SE UMA ETERNIDADE ELE PENSOU E DO OUTRO LADO DA CIDADE ELA SE REVIROU NA CAMA QUE NUNCA DIVIDIRAM E ONDE O TEMPO NUNCA PASSOU. INCLINOU-SE NA JANELA PENSANDO SE ELE SE INCLINAVA DE LÁ FUMANDO. PENSOU EM LIGAR MAS NÃO TINHA MOTIVO TALVEZ FOSSE UM POUCO DE JUÍZO TALVEZ FOSSE UM MONTE DE MEDO TALVEZ FOSSE APENAS DESEJO TALVEZ FOSSE SÓ SAUDADE TALVEZ ELE ESTEJA DORMINDO TALVEZ SEJA POR QUE HOJE É DOMINGO E NADA MAIS FAÇA SENTIDO ALGUM. QUEM SABE ELE JÁ SEGUIU EM FRENTE QUEM SABE ATÉ ESTEJA CONTENTE E TENHA UM POUCO DE PAZ. MAS DE CÁ A NOITE É QUENTE E TUDO QUE A GENTE PENSA QUE SABE PASSA PELO QUE A GENTE SENTE. ELA PASSOU A NOITE EM CLARO. ELE TAMBÉM PASSOU. NUNCA MAIS TOCARAM NO ASSUNTO E NUNCA MAIS SOUBERAM O QUE O OUTRO SENTIA PORQUE A VIDA SIMPLESMENTE SEGUIA.

Laura Limp
* sob a influência de Fernanda Tellez

Janeiro 30, 2009




Janeiro 21, 2009

CARTA PARA UM AMIGO

Vibra a voz do outro lado.
Tensa.
Entrecortada.
Em total desacordo
com o papo desse lado.
Com os risos de cá.
Com o assunto.

Vibra a voz,
e as palavras flutuam,
sem rumo,
ao meu redor.
Como alfinetes suspensos.

Meu corpo, antes
sacudido pelo riso,
pára.
Contraído.

Nessas horas,
não se escuta direito.
Porque os órgãos, parece,
mudam todos de lugar.

Os sentidos se aglomeram
na ponta dos pés,
sobre o peito.

A razão se agacha,
encolhida,
num canto qualquer de silêncio.

Um gosto metálico toma a boca
e todas as luzes se abafam,
como num pesadelo.

Reina, soberana,
a imaginação.
Solta e desgrenhada.

E ervas daninhas brotam
como perguntas estéreis.
Que importam as respostas?
Nada.

Um absoluto nada
Simples e negro.

Um buraco oco de dor
pulsa no peito.
Na boca, a língua
se afoga em nãos.
Nas mãos...

Nada nas mãos.


E dessa explosão de choro,
de assombro e de raiva,
não surge estrela alguma.

Só a consciência
de que a vida
passa.

Depressa.

Tão depressa que, às vezes,
te atropela.
De tão sem sentido,
de tão brutal que é capaz de ser.

De que a vida é suspensa
por um não sei o quê.

Uma vez,
minha filha, comigo,
ao telefone,
tomou um choque.

Foi um raio que caiu.

Eu sei, agora
o que ela sentiu.

Notícia ruim sobre amigo,
e ainda sendo
tão amado e querido,
é assim:

Como ser acertado por um raio.

Dói. Dói pra caralho!



Para Jota, escrita na madrugada, no Rio de Janeiro, numa quinta-feira infernal.
Dia 15 de janeiro de 2009
E que eu nunca mais escreva algo assim, para ninguém.

Janeiro 15, 2009

O QUE SERIA


Você
não suporta
a tempestedade
que sou
nem o deserto
que há em mim


Você é muito assim
você diz
sim, assim eu sou


Não vou disfarçar
fingir, reprimir
calar, temer ou
me trair

te darei meu todo
pleno e cheio
te darei meu inteiro

te daria...


mas não queres
e perdes
tudo
o que seria


As maldições e as bençãos



Sobretudo, as bençãos










Laura Limp
foto: Jan Saudek

Janeiro 09, 2009

O Cheiro da minha casa


Minha casa tem muitos cheiros.
Cheiro de bolo de chocolate,
pão de queijo e café quentinhos.
Por que é casa de filhos, primos
E de amigos mui queridos.

Minha casa
tem cheiro de lembranças,
de infância e de flores.
De livros, discos,
incensos e amores.

Cheiro de tinta nos quadros
e de chulé nos sapatos.
Cheiro de dinossauros
e peixinhos no aquário.
De cinema na sala
e teatro no armário.

Minha casa é cheia de gente.
Gente que mora ou que visita.
Às vezes é circo,
Noutras hospício,
Sempre um porto.

Seguro, embora mutante.
Às vezes templo pagão
Noutras templo budista.

Quando é noite,
É lua cheia de vozes altas
Música e riso.
Tem cheiro de vinho e cigarro.
Tem cheiro de cerveja.
Tem cheiro de velas
de canela, rosas,
baunilha e camomila.

Quando é manhã clara
de sol e quietude,
tem cheiro de suco de laranja
nescau, morangos e iogurte.
Cheiro de cangote suado de filhos
e cheiro de banho tomado.
Cheiro de roupa colorida no varal
E cheiro de uniformes passados.

Minha casa tem o cheiro
de todos esses cheiros misturados.
Tem cheiro de vida em crescimento,
com direito a sustos, tombos e
rios de lágrimas corridos.
Mas tem também
cheiro de abraços apertados.
De beijos dados
e ainda outros beijinhos guardados.

Se minha casa cheira
À gente, comida, café,
arte, brinquedos, chulé,
vida e trabalho,
amor e amigos,

prantos e risos,
música, natureza
filmes antigos,
e ainda, quem diria,
tem o cheiro da chuva

e o da maresia...

Minha casa,
só podia ter mesmo,
esse cheiro de poesia.



Laura Limp

Dezembro 18, 2008

AMANHÃ


"Birds flying high
you know how I feel
Sun in the sky
you know how I feel
Breeze driftin' on by
you know how I feel
It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good (...)"*


Minha vitrola anda quietinha
Poeira de tempo nos discos
Silêncio de agulha parada
Cortina fechada

Como se minha casa tivesse cortinas...
E não estes imensos olhos transparentes

Mas é noite
E a única luz acesa
é essa vela na minha cabeça
que não se apaga

Amanhã vou acordar
e antes de escovar os dentes
ela vai tocar
soberana e altiva

Quero minha diva
Nina
e um piano gostoso
mais um café quentinho

E o sol invadirá a casa
com seus raios dourados
como zilhões de peixinhos

E a música
invadirá os quartos e os sonhos
de quem tiver dormindo

Tem jeito melhor de acordar?
Voz de diva
peixinhos dourados
e uma boca de café
esperando
com beijinhos guardados.


Laura Limp

*trecho da música Feeling good, de Nina Simone

Dezembro 14, 2008

CADA VEZ MAIS


Gosto do desenho
dos nossos corpos
tão reais
Deitados
Contorcidos de amor
Latejando paz
Latejando paz

Gosto demais
do perfume que a gente tem
quando se mistura
e que dura
e dura e dura

Gosto muito
quando a gente sabe
e se olha
e não tem que dizer nada

e simplesmente evaporamos na madrugada.



Laura Limp

Dezembro 12, 2008

AINDA EM CONSTRUÇÃO ou seja, sem título e sem conclusão



Não precisa muito
Pra me emocionar
Às vezes
Basta uma boa letra
Basta uma voz bonita
Basta um motivo

É a cor do vestido da moça
Florido
É a cor do vestido da moça
Florido

É o sorriso
É o riso

Não precisa muito
Pra me tocar
Às vezes
Basta uma criança feliz
Correndo
Basta uma chuva gostosa
Caindo
Basta uma gota

Às vezes
Basta você chegando
Em casa
Às vezes
Basta a casa
Às vezes só eu
E basta

Não precisa muito
Pra me emocionar
Às vezes
Basta uma poesia
Noutras
Só uma palavra basta

Às vezes
A visão de um instrumento
Outras
Um acorde apenas

Basta tua nudez
Muda
Basta tua nudez
Absoluta

Não precisa muito
Pra me tocar
Às vezes
Basta o universo inteiro
Noutras,
Basta um verso

Às vezes
Basta um toque
Apenas
Às vezes
Basta um cheiro

Não precisa muito
Basta o mundo inteiro

Não precisa muito
Basta o mundo inteiro

E tudo que há nele
De sublime e simples
E tudo que há nele
De verdadeiro



Laura Limp

Dezembro 09, 2008

HOJE, NÃO ESTOU



O céu esburacado, me olha
Dois olhos pequeninos e iluminados
Me encaram.

E eu, sempre
Eterna e ternamente infantil
Espero
que, de algum modo
eles pisquem pra mim.

Maldigo todas as luzes da cidade
Que se apaguem! Que se apaguem!

Prefiro o esburacado céu
Ao colorido histérico
Dos neons
Postes, carros
Janelas, pisca-piscas
E letreiros.

Que se apague a vida artificial
E sejamos só natureza
Só acaso.

O ruído da cidade também me perfura.
Que cessem todos os sons metálicos!

Que o dia volte a ser dia,
simplesmente.
E a noite
deixe de ser açoite.

Se pudesse,
Me perdia no mundo...
Roupa do corpo
Peito aberto

De bagagem
Só caneta, papel
Confiança e coragem.

Se fosse outro
Esse céu
Se fosse outro
Esse mundo
Se fosse outro
Meu papel nisso tudo...

Um dia
Me perco
Até de mim

E ai de quem me ache
Nua e errante
Por aí

Que só me importa a estrada

Mudo mesmo
A todo instante

E ai de quem me ache
Nua e errante
Por aí

Vago
nas profundezas do que sou
pra voltar
cigana e colorida

Que só me importa a estrada

Hoje, não estou.
Viajo sob o céu
esburacadamente brilhante.

Tenho os pés
Eternamente descalços.

E ai de quem me ache,
Nua e errante,
Por aí.

O céu esburacado,
Cresce
E continua me olhando.

Dois olhos
Pequeninos, iluminados
Prateados, ignoram

E piscam pra mim
Quando não estou olhando.

E piscam pra mim
Quando não estou olhando.



Laura Limp

Setembro 21, 2008

TRATADO


Um homem,
para ser meu,
há de ser livre.
Acima de tudo, livre.

Livre do medo,
e do “quem sabe”.
Livre das hipóteses,
apólices e afins.
Livre, até de mim.

Livre de alma,
de corpo
e de sentidos.

Sobretudo,
livre da mesquinharia
dos caminhos conhecidos,
do apego à segurança
e do medo do ridículo.

Um homem pra ser meu
tem que ser, primeiro,
seu
e de mais ninguém.

Livre de amarras.
Sem rédeas-preconceitos
ou coisa que o valha.

Sem medo do risco
do precipício do cotidiano.
Ou do enfrentamento de vontades opostas
e igualmente verdadeiras.

Sem medos das escolhas
e suas conseqüências.
Sem medo do risco.

Sem vai e vens profundos
que não sejam só meus.
E de mais ninguém.

Um homem pra ser meu,
há de ser livre também na cama
e há de ser livre também na mente.

Há de estar sempre aberto,
peito e sorriso.
E quando preciso,
que me abra suas dores também.

Um homem pra me ter
como mulher,
um homem pra meter,
há de saber que sou sua
mesmo sendo eu.
Sou sua e ponto.

Há de se saber
soberano do meu desejo.
Rei dos meus carinhos.
Mas não escravo de minhas vontades.

Conselheiro de minhas incertezas.
Menos pra príncipe
e mais bobo da corte,
com certeza.

Um homem
pra me ter e meter,
há de se saber.

Sendo tu, meu companheiro,
serei a consequência boa,
a eterna amante
lasciva e apaixonada.


Serás o eterno namorado.
O mundo todo retido e estático
fora das paredes do quarto.

Serei eu a mulher que apóia,
que levanta,
que às vezes empurra,
que sacode.

Não direi meias verdades
nem as quero ouvir.

Farei as vontades,
livre que sou.



Laura Limp
foto by HellAngelBaby - do site deviantart

PALHETA ALCOÓLICA


Não gosto dos poemas de desamor
Não gosto dos tons cinzas da realidade

Gosto mesmo é de colorir
A realidade e o amor
Ao meu modo

Uso como palheta
A cerveja e o vinho
As cores do álcool

Ah! As cores do álcool
E o cinza todo se desvanece

Feliz desrealidade!
E adormece o amor
Nos meus braços...

Feliz desamor!
E adormeço
Nos braços da realidade.



Laura Limp

À alma tua


Minha boca na tua
desce,
desordenada e metafísica
pelo teu queixo, pescoço
peito, mamilo
umbigo, pêlos.

Desatinada, desce
Ainda mais
A caminho do inferno
E se perde
Quente e doce
Pra nunca mais voltar
À boca tua.

E se desprende, assim
Pra nunca mais voltar
À pele tua.

À alma tua,
Nunca mais.

Você é guerra
E eu quero é paz.

Eu quero a calma
do amor sem dor
que você não traz.



Laura Limp
foto: Jan Saudek

MEU CASO


Estou com certa adoração
Por essa coisa de ficar em casa
sem pressa,
sem pressão.

Fins de semana
sem compromissos
sem telefone e sem roupas.
Que tesão!

Fumo quando me dá
Bebo quando me dá
Como quando me dá

E se não dá
Aí que me liberto
Até de mim

E fico assim
Do jeito que quero
Largada no sim
Que só minha casa permite

Largada sim, na poesia
Dos fins de semana
De casa vazia

Que escrever não é trabalho,
é prazer
E prazer não pode ter prazo
Nem correria

Que graça tem
o gozo apressado
ou contido?

Quando não estou contigo
Com os amigos, filhos
Trabalho e família
Estou mesmo é tendo um caso


É por isso que nos fins de semana
De casa vazia
Nunca estou sozinha...

Estou
muito bem acompanhada
da minha amante.

Minha eternamente
e ternamente livre,
poesia.

Não precisa ter zanga,
ciúmes
ou qualquer outra bobagem

Segunda eu volto pro mundo
Ainda que traga ela, comigo
na bagagem.


Laura Limp

Julho 25, 2008

A CHUVA , AS POÇAS, OS ANJOS E OS GARÇONS


Basta chover e tudo recupera sua humanidade.
A chuva tem essa característica, de deixar o cheiro das coisas mais próprio, aguçar, depurar.
O cheiro retorna ao seu lugar de origem.
Molhado.
Como no nascimento.
Como nos princípios.
Uma tarde de sol virou uma tarde deliciosa de chuva. Tarde de sonhos, de desejos quase infantis de tão puros. Desejos encorpados.
Se relampejar melhor, pois melhor e maior fica sensação crua de minha vontade.
A umidade arrepiando minhas pernas através das mãos macias e lascivas do vento.

Chove e olho para a rua hipnotizada, captando com meus sentidos-antenas extendidos todo o reboliço crescente e toda a beleza dele decorrente causados por sua presença molhada, pelo seu toque ou simples ameaça.
Formam-se poças rapidamente e essas poças d’água formadas na calçada de concreto cinza, refletem só ilusões, como reflexos nos olhos dos anjos ao olharem cá pra baixo, sorrindo. Cada gota que cai, uma humanidade possível.

Os garçons do bar onde escrevo estão emudecidos pela música que ouço, empurrada para dentro de meus ouvidos. Os garçons emudecidos parecem, ainda assim, regê-la, com extrema simplicidade, enquanto esperam para carregar os tonéis de esquecimento para bem distante de minha vista. Para o outro lado do bar. À minha mesa já tenho comigo um copo cheio dele. E outro de ansiedade. Mas este só é visível para mim.Uma ansiedade que me faz pousar outra vez os olhos sobre os garçons. Novamente os garçons... Agora, não mais regentes, mas como crianças, empurrando os toldos verde oliva enquanto sorriem e balbuciam olhando para aquela água toda, acumulada, caindo...

Quanto à mim, vou observando à todos e às novas poças que vão se formando depois disso.Todo esse olhar para fora do que sou, na verdade, só para sentir tudo que não seja eu e que não venha de mim, neste momento.
Estou sentada na beira da minha estrada.
Sentada.
Ouvindo.
Vendo.
Escrevendo.
E bebendo.

Penso que deveria estar caminhando, tomando um rumo. Fosse ele para a frente, ou para trás. Mas onde estou agora, não tem retorno. Retornar seria furar os próprios olhos com esta caneta que escrevo. E mesmo assim, de nada adiantaria.
Uma longa e forçada espera.
Nem sei o que aguardo, pois tenho a mente e o coração suspensos. Ou seria submersos o termo exato? Longa espera. Aliviada apenas pela chegada da chuva. Chegada, não. Eu diria passagem. Foi um presente de distração. Mas a chuva passa como passa também a menina agarrada à mãe,
saltando as poças d’água pelo caminho.
Menina, as poças são inevitáveis. Cedo ou tarde alguém vai se molhar.

Os reflexos agora não me revelam mais nada. Só fios e árvores. Esfria o tempo e a tarde finda. Meu corpo relaxa. A poesia não quer se ausentar. Conheço-a. Não é companheirismo, é curiosidade.Ela quer estar aqui, quando a espera acabar. Todos queremos saber como termina, não é verdade?
Eu não.
Eu quero saber como começa.
Uma coisa é certa. Se começa com chuva, começa bem.

Laura Limp

Junho 10, 2008

ESSE SONHO NÃO ACABA, NEM PRINCIPIA




Sonhei com o céu coberto de flores

brancas, azuis, rosas chá,

amarelas, púrpuras, vermelhas...




E caíam no mar

flores cadentes.

A areia, pó de estrelas.

As conchas,

estrelas inteiras

meus pés a espetar.




Sonhei

que andava sobre o mar

com peixes nos cabelos.

E os barcos mergulhavam

nos meus seios.




Dos meus seios,

por sua vez,

escorriam espelhos.

Pois de espelhos

era feito esse mesmo mar.




Sonhei

que o sol era feito de sal

e apagava meus cabelos de brasa,

quando a noite vinha

e o sol teimava em nevar.




Que de dia,

a lua os reacendia,

com sua chuva de incensos.

Meus cabelos átomos

luziam

azuis e em silêncio.




Minha cabeça,

um facho sem fim,

sustentava meu corpo

de cinzas flutuantes.

Eternamente se desfazendo,

refazendo mapas e

florestas de pensamentos.



Minhas mãos,

dois amantes consternados

costuravam a meus pés,

constelações de rios rabiscados

e sem fim.




Acordei

quando cheguei no horizonte.

E quando dei por mim:

Tudo de ponta cabeça...

Estava era caindo da cama

E caí

e caía...




Esse sonho não acaba,

nem principia.





Laura Limp

Falando em besteiras...


Ai, que só ando pensando besteiras
Mas besteiras boas de se pensar...
...Que são as boas de se fazer

Ai, que minhas besteiras se embolam nas tuas
Enquanto nos olhamos, só pensando
Nas besteiras que faríamos
Se não estivéssemos conversando

Ai, chega tua conversa pra lá
Que está me incomodando
e devolve, disfarçadamente
aquele pensamento roubado
a besteira que guardastes
no lugar errado

Ai, pra quê tanta imaginação?
Pra quê tanto papo?
Desvia o olhar
Não olha pra mim
Olha pra lá
Hummmm...pegamos as besteira no ato!
E nós, conversando e corando
Fizemos tudo errado...

Fugimos,
cada um prum lado

Na próxima
Deixa as besteiras assumirem o papo
E fujamos juntos
A cometer besteiras
de fato


Laura Limp

CLAREIA CAETANO




Bebo vinho
ouvindo Caetano
ao meio dia.

Sol,
vitrola
e poesia a pino.



Que seria de mim,
a essa hora,
sem essa vitrola?



Seria só eu.
Seria só vinho.
Seria só desatino.



Venha Caetano,
que agora
sou só ouvidos.



Sou só papel,
mão , caneta,
boca e sentidos.



Venha agora,
que a hora é boa
pra beber e escrever.



Canta agora,
que a hora é clara.
Passa longe o anoitecer.



Clareia Caetano,
meus bêbados versos,
até o tropeço do amanhecer.





Laura Limp

Junho 08, 2008

Cheia do tempo


Todos ao meu redor
Tem tanta certeza
Coerência, lucidez
Prudência

Estou cercada e farta
Das opiniões
Dos nãos
Das desculpas
Das opressões veladas
Das verdades absolutas

Estou cercada e farta
De teorias
Pro inferno com as teorias
Pro inferno com os teóricos
Pro inferno as leis
As regras de convívio
Pro inferno o inóspito
O juiz e o juízo

Sou o ponteiro do segundo
Pendurado e solto
Pêndulo na noite eternamente branca.
Negro e reto
Cheio do tempo
Cercado e farto
Dos números e dos malditos fatos

Sou a hora desesperada e nua
E os minutos
Simplesmente passam,
Barulhentos
Os minutos me atravessam,
Violentos
E simplesmente passam
Os minutos me trespassam...

Laura Limp
foto de natdatnl, do site deviantart

Inconclusões I


"Como se fecha
rápido a porta da ilusão
quando abrimos
as janelas da razão."

Laura Limp
Desenho de Juarez Machado

Febre 2


Coisa doida isso
De sentir frio
Febre, calafrio

Ardo, me dispo e te cubro
Me cubro, ardo e te dispo

No meu delírio
Sinto um frio
Coisa doida isso

Cala-te febre!
Cala-te frio!

Laura Limp

sem título


O que é a saudade de algo
Que nunca esteve lá?
Que nome se dá?
Que nome se dá?

Como se expulsa aquele
que nunca entrou?
E nunca entrará.
E nunca entrará.

Laura Limp

Dá pra explicar, meu nego?


Hoje eu pus um samba
na vitrola, pra tocar.
Só saiu blues, meu nego
só blues a tocar.

Laura Limp

Mais um sábado


Festas acontecem e convidam
Enquanto eu me calo

Discos tocam e arranham
Enquanto eu me banho

Copos enchem
Viram e se esvaziam
enquanto eu me deito

Neste sábado
Sou eu, a poesia
e a cama vazia.

Melhor assim.

Laura Limp

Comportem-se


Meu amigo, se comporte
Sem dúvida
Ficará a amizade mais forte
Pois que a certeza do teu não
Tranquiliza o sim
Que habita em mim

Sem dúvida
Ficará a amizade
Melhor e madura
Sem mordida alguma
Nada na mão do acaso
Ou da sorte

Que nos conforte
A amizade pura
Porque nada é mais forte

Amizade,se comporte
Sem dúvida
Acabarás sendo tu
Ao mesmo tempo
O norte e o forte

Meu amigo, se comporte
Amizade, me conforte
Porque eu, meus caros
Me comporto muito mal
Eu mal me comporto

Mordo a amizade madura
Roubo da sorte o acaso
E com o tempo
Ainda destruo o forte
Sem dúvida alguma

Laura Limp

Junho 04, 2008

Segredo e mentira


Os segredos são necessários e interessantes.

Um segredo não é uma mentira,
só por que alguém não o conhece.
Uma mentira é para esconder-se de si mesmo,
pensando que assim está escondendo-se dos outros.
Um segredo é para se lembrar de quem você é,
de verdade.
Por isso alguém precisa sabê-lo...
para lembrá-lo quando você se esquecer .

Mentiras podem e devem ser esquecidas.
Mentiras se criam e se desfazem.
Os segredos, não.
Um segredo não se esquece.

Segredos simplesmente acontecem.


Laura Limp
Fotografia de Rui Lebreiro

Meu batismo

Hoje eu abro a janela
e deixo o sol entrar...
Atravessar a minha alma
enquanto ela se transforma.
Hoje eu comemoro
dando um mergulho no mar...
o início de uma vida nova.
A alma lavada,
é o meu presente de nascimento.
Meu batismo de sal e mar.



Laura Limp

da série " poemas secretos, curtos e bobinhos".

Junho 03, 2008

HOJE, NÃO TEM INTENÇÃO DE POESIA




Hoje não tem intenção de poesia.

É a palavra
que não pode,
que não quer
e não vai calar...

...embora seus sentidos sejam muito particulares
e difíceis de decifrar.

Então soltarei aqui todas as minhas palavras vadias
e quem sabe você encontre um significado,
um lugar para escondê-las,
Ou retê-las.
Um bar, um hotel, uma esquina
um buraco negro, um poço sem fundo
um ouvido, uma lata de lixo
uma garrafa vazia jogada...
um segredo, enterrado na praia
ou sussurrado ao vento...
Quem sabe?

Na necessidade do momento
o que se consegue é ter, de fato,
uma sincronia de momentos não compartilhados...
Ahhhhhhhhhhhhh....as ondas revoltas do mar!

A natureza refletindo toda a batalha do interior,
e eis que o corpo adere a rebelião.
Não quer andar,
não quer dormir,
não quer obedecer aos comandos mais simples.

Ahhhhhhhhhhhh...as ondas revoltas do mar!

Quer, simplesmente,
rebelar-se!
Contra toda e qualquer razão,
Contra todo e qualquer comando não-orgânico,
Não-verdadeiro.
Quer, simplesmente,
Rebelar-se!

Ahhhhhhhhhhhh....as ondas revoltas do mar!
À qualquer custo.
E como custa!

O corpo quer libertar a alma
e me castiga porque eu não deixo.

Então caminhei por toda a praia,
levada pela desordem de todos os tempos.
Mas o meu corpo cederá a minha vontade,
porque quem manda aqui sou eu!

Ahhhhhhhhhhh...as ondas revoltas do mar!

Assim começa minha carta...dessa ilustre desconhecida, para você, amiga.
Começa assim, doida e livre, como não podia deixar de ser.
Caminhei hoje, minha cara, de ponta a ponta da praia. O mar aos meus pés, revoltava-se e tentava me derrubar. A cada passo, dava uma lambida agressiva nas minhas coxas, como se tentasse arrancar meu vestido, ou algo mais que pudesse estar escondido.

Num outro dia, poderia até ter sido excitante, mas hoje não.
Não hoje.

O mar me batia quando vinha, furioso e descontrolado.
E depois convidava, quando voltava a si, para fazer as pazes,
puxando-me com força...
Meus pés: raízes fincadas na areia.
E a respiração presa, como antes de receber o tapa hesitante.

Ahhhhhhhhhh... espuma!
A natureza inteira parecia refletir minha própria natureza interior.

Em luta.

Em queda.

Me pergunto se faz diferença cair do abismo sozinha, ou acompanhada?
Provavelmente, gritaria até estourar as veias, do mesmo jeito.
Possivelmente, gritaríamos, enlaçados.

De fato, o mundo como o conhecemos, morreria,
e nós com ele, e isso é tudo.
Simples assim.
Como dizia Vinícius naquele poema :
“A morte é simples.
Coisa simples a morte.”

Mas retomando a carta,
(porque hoje não é dia de morrer,
pelo contrário,
escrevo hoje grávida de tanta vida que há em mim):

E eis que chega a chuva,
como se não bastasse o vento cortante
e o universo inteiro dançando em meio aos cacos.
A chuva chega
como a pincelada final do artista irônico,
entre lágrimas e êxtase,
sabendo que com esse gesto,
as almas se partirão ao meio.

Mas na praia, amiga,
não havia artista.
Nem espectador havia.
Nem mesmo outra alma além desta, que vos fala.
Um ser humano,
parado,
no meio da tempestade.
Pequeno
e incapaz de controlar os ventos com sua vontade.

O céu
era uma partitura insanamente bela.
Cada nota,
do cinza agudo ao anil forte e profundo,
espalhadas a esmo pelas nuvens encolerizadas,
me fazia chorar.
E chorei.
Sem pudor, sem vergonha...
Chorei mais do que pude.

E a beleza deste momento,
de verdade única e incompartilhável,
se perdia em si mesmo, hermético.
Como minhas lágrimas em meio à chuva forte,
como perdiam-se também minhas pernas e meu vestido entre as espumas coléricas das ondas.
Possivelmente, perdida estava também minha imagem em meio à intensidade da tempestade,
como uma fotografia antiga, em preto e branco e fora de foco.

Parei e fiquei ali,encantada.
Eu era a amante do mar, do vento
e escrava do tempo.

E fui me deixando levar,
àgua à dentro, por dentro...
...e pra dentro do mar.

Em pensamento....claro. Sua tola!
Foi só um pensamento, um momento.

Não.

Foi mais um sentimento de comunhão com todo o resto.

Me deixei d i s s i p a r.

Me perdi,
para poder me encontrar.


Um dia, se perderá também a lembrança de tudo isso, quando eu me entregar ao espaço.
E de forma lenta, este momento eu conscientemente atraso...
embora não esteja nas minhas mãos,
como tantas coisas que me escorrem como areia...

Não se preocupe comigo,
porque estou grávida, amiga!
Como eu te disse:
Estou prestes a parir uma vida.
Estou grávida de mim!

Estou transbordando, repleta de possibilidades.
Estou grávida de tempestades
e de humanidades.

Beijos, amiga
Desculpe a batida da porta, precipitada e ríspida.
Era só um ser pequeno, tentando controlar a ventania...
...quando deixou escapar, de dentro, um pouco de vento.

E não desapareça, não. Nunca.
Não ouse desaparecer.


Beijos Zil.
Lhões.


Laura Limp

da série "correspondências que nunca trocamos"

Uma página em branco



...uma página em branco, ao futuro, ao porvir, à verdade, ao que tiver que ser, ao que virá, um brinde ao que será, ou deixará de ser, ao compositor de destinos, esse velho e sábio companheiro...o tempo, tempo, tempo...

Laura Limp

obviamente inspirada pelo Chico, Caetano, Bethânia e Vinícius...

Maio 25, 2008

Forte e puro




Na xícara

o café repousa

forte e puro.

Enquanto o vapor se eleva

leva, consigo

a lembrança do teu gosto.



Na boca

o beijo repousa

forte e puro.

Enquanto a lembrança se eleva,

leva, consigo

o café da minha boca.




No café

a boca repousa

e pousa a lembrança do teu beijo.

Enquanto teu beijo se eleva,

leva, consigo

o teu gosto da minha xícara.




No beijo

o café repousa como lembrança

e teu gosto se eleva

forte e puro.

Enquanto na xícara

a boca repousa,

leve consigo o vapor do meu beijo

e teu gosto do meu café.




Deixe comigo a lembrança

e o café

pousados ,

fortes e puros.


Ou pouse comigo,

enquanto se eleva a xícara e o café

E nós repousamos

na lembrança do gosto do outro.





Laura Limp

da série "poemas secretos, curtos e bobinhos"









Maio 11, 2008

Sexo devaneio entre a prosa e a poesia

A música
percorreu a distância de universos
e se esgueirou ,
escorrida ,
tímida quase,
pela janela do quarto.

Depois,
preencheu o espaço
de um jeito sensual e
inescapável.

Logo após ,
com o consentimento da distração
e furiosamente ,
penetrou as frestas,
as brechas de pensamento,
contaminou a saliva ,
o sangue e o vento.

Eriçou os pêlos .
Fez carinho nos cabelos .
Beijou cada poro .
Lambeu ruidosamente o chão .
Até quebrar , como onda ,
os sentimentos
e tornar turva a visão.

Essa mesma música ,
Essa...
Que me cortejou
Sem eu dar por mim ...
Que me imbuiu de imagens sem nome.
Essa mesma música ,
interferiu na minha alma.
Fez da minha calma ,
Reboliço.
Fez de minha cama,
fogueira.
E de minha escrita ,
compromisso.

E ainda assim,
mesmo que eu não queira,
é ela que me norteia.
É perseguindo-a que me perco
na busca arrebatadora
de um sexo-devaneio
entre a prosa e a poesia.

E é na busca dessa conseqüência ,
dessa semi divindade,
que persigo , de fato, a causa.
A origem.
O gerador.
A força motriz.

Percorro com os dedos-língua
o ar.
Meu olhar
pra fora do vidro ,
pra além de outros mundos,
procura o caminho.

Resta essa impressão .
Essa lembrança melódica.
Esse acorde nefasto.
Esse mapa muito humano ,
feito de sensações
e desprovido de sentidos.

Procuro o sagrado
esperando encontrar o profano.
E é na eminência da loucura
que esbarro com outra procura...

Minha musa furtiva.
Minha música sorrateira.
Escapou pela soleira de mim
entreaberta que estava a passagem.

Era sonho , era miragem.
E a realidade do meu delírio,
acordara toda a rua,
acordara toda a cidade..

Minha música
era um grito de existência!
E acordara toda a humanidade.




Laura Limp

Basta um pensamento

Ah! Meu corpo em combustão.

Basta um pensamento

E todo um universo surge

Dessa explosão.



Laura Limp

Segredo

Contigo, tudo é calmo.
Tudo tem gosto agridoce.
Tudo fica macio.

Hoje, cada toque é secreto...
...Você sopra em meu ouvido.

Sssssshhhhh...é segredo.
Não me olha tão de perto.

Me beija, agora,
E não conta pra ninguém.
Assim, escondidinho e devagar.

A noite é curta
Já vai acabar.

Vou. Tranquila.
Só o vento sabe...
E ele sopra, sem pressa,
Como você faz.

Laura Limp

da série "poemas secretos, curtos e bobinhos"

Pela Janela

Ou ando fora do tempo...
Ou são as nuvens
que passam correndo.




Laura Limp

Quadros que não pintei, porque estava fazendo versos...

Caminho com as mãos desastradas
Passeando pelos teus cabelos.
Você dorme,
eu amanheço.
...
Quando estamos assim
O tempo se diluí...
Eu em você
Você em mim.
E se abro os olhos
Vejo os teus
Sorrindo pra mim.
...
Se meus olhos se fecham,
estremeço.
Não quero dormir.
Ai.
Se ao teu lado me deito
Uma vontade louca me possui...
...de acordar você.

Me detenho,
Guardo- te como fotografia.
Tenho um dia inteiro
Cheio de quadros
Que não pintei de você
enquanto você dormia...

... mas que poderia ter pintado
Só não pintei porque não sabia.

Laura Limp


da série" poemas secretos, curtos e bobinhos"

Maio 10, 2008

DIAS COMO ESTE


"Algo de visível perpassa os limites de ser. Aceita o transitório. Nada do que é definitivo e duro te pode atingir." *

Há dias em que tudo nos arrebata,
e todas as frases guardam sentidos grandiosos,
e todas as mensagens te têm como destinatário
e até enxerga-se o gracioso no mais ridículo.

Onde tudo é um ensinamento sagrado,
sacramentado pelos gestos imperfeitos
daqueles que são perfeitos em sua imperfeição.

É no mais fundo de mim,
onde queima aquela chama
cuja presença por vezes esqueço,
mas que nunca se apaga...

Não, é ainda mais fundo,
onde o choro se confunde com o riso
e me delicia e me enlouquece...

É lá
que vibra minha existência.

Tão inconsciente de si mesma,
e tão independente de minha consciência exata,
literal.

E eu vivo pulsante um dia como esses.
Que de tão real se confunde com o sonho.
Que de tão enorme e tão profundo
me impele a gritar.

Retenho o grito,
só pra prolongar a sensação de liberdade,
que assim,
ecoa... ressoa...
pra depois sair de mim.

Dias assim existem,
bem como talvez, não existamos nós,
de fato.

Aos poucos
travo minha batalha interna
contra a estupidez cega do meu próprio egoísmo,
contra o labirinto de muralhas que eu mesma criei
e provavelmente ainda crio,
contra minha própria acomodação
vinda sei lá de qual doutrina
contra a qual esbarrei no caminho...

...de esperar o dia seguinte,
o momento certo,
a palavra exata.

Luto contra o cansaço.
A gravidade
que puxa pro chão duro
minha liberdade.
Minha crença no vôo,
na capacidade.

Luto,
e às vezes a solidão me acompanha
brincando de tapar meus olhos,
de confundir o que ouço,
embaralhando a verdade das minhas palavras,
tentando me intimidar.

Mas eu deixo a solidão cansar.

Logo ,
um pouco abatida,
mas não vencida.
Suada, mas não forte ainda,
me confronto comigo.

Me olho nos olhos.

Sacudo a poeira da falsa idade,
procurando... a verdade tão temida
e deposito a seus pés meus escudos,
meus agasalhos,
meus óculos escuros ,
meus óculos cor de rosa ,
meus conceitos,
minha aceitação das coisas
e minha segurança.

Coloco a seus pés minha razão,
minhas “certezas”,
meus mapas.

E desse jeito
vou despejando sobre a areia do tempo
minha camuflagem de sobrevivência.

Deposito também minhas ausências,
minhas culpas,
minhas loucuras,
minhas carências,
o meu pudor.

Por fim,
derrubo minhas torres
e estas arrastam consigo as pontes do medo
num ruído ensurdecedor.

E toda minha estrutura se abala,
pro encontro com a verdade.
A temida e ansiada
e desconhecida verdade.

Não sobrevivo,
agora sim ,eu vivo!
No entanto,
a luta máxima, o choque dos opostos ,
reverbera pelos meus quatro cantos, e continua...
cada vez mais intensa.

A cada dia, a cada momento, mais mortal.

Não existe retorno.
Persiste o combate.
Mas a recompensa, certamente ...
habita dias como este.

Laura Limp
*Nuno Júdice
foto de Jan Saudek

As curvas do vento

Súbita sensação estranhamento do mundo como coisa certa.
Aclarada percepção da realidade como correnteza cega.
A saia longa roçando as canelas em meio ao mar de pernas trôpegas
E de pernas apressadamente decididas.
Mas...
quando olha-se no horizonte:
Os olhos-velas estão marejados de dúvidas.

O calor, escapando do corpo,
preso entre as peças de roupa,
metamorfoseia-se em aromas.
Mistura-se à maresia dos carros...
E perde-se, livremente, no espaço.

A história de meus passos,
seu sentido e suas qualidades próprias,
dissipam-se na tempestade dos acontecimentos.

Meu caminhar não tem hora,
não tem mapa,
não tem rota de fuga.
Aninha-se, tão somente,
na fugaz convicção da chegada.
E talvez, um pouco...
na ilusão sublime da luz do farol.

A barra da saia roça a pele
sem saber que roça a alma.
E a alma, desconhece terras,
desconhece caminhos.
Só conhece ventanias...

Pra onde nos levará o vento, com suas curvas?


Laura Limp
(texto e fotografia)

Saída do canto do tempo

Sobe a fumaça em espiral
Saída do canto sujo do cinzeiro.
Sobe
E acompanho seus caminhos
Com devaneios.
Sobe
E o tempo passa arrastado.
Sobe
E o tempo passa arrastando.

Do canto sujo do cinzeiro,
Que é de barro,
Espirais de tempo sobem.
Percebo
Que a fumaça não é a saída.
Percebo
Que o cinzeiro não tem canto,
Posto que é redondo.
Percebo
Que o tempo não se arrasta,
Posto que é espiral.
Percebo
Que o tempo permite
As subidas , as saídas ...
Que o tempo
É que faz o barro.
É que desfaz o cigarro.
Que o tempo
Acompanha os devaneios.

Compreendo
Que a poesia
É amiga do tempo.
Do tempo, que sua relatividade
É conseqüência de olhar o mundo
Com olhos de poesia.

Sobe a poesia em espiral
Saída do canto do tempo.

Laura Limp
Fotografia de Ana Limp

Para minha amada Ana

Ana é prima
com recibo de irmã mais velha.
Com direito à tudo
que uma amizade e irmandade tem...
Ana tem no ser algo de Lou Salomé,
de anarquista, de samba no pé.
Poesia no olhar e no ser ...
Ana tem uma mistura de moleca e de mulher.
Tem cheiro de terra,
cor de Brasil
e identidade com o mundo.
Ana tem um vulcão dentro de si,
que quando lava...sai de perto!
Ana tem um mar de mansidão
dentro se si...
Que só conhece quem merece...
Ana é paradoxo.
É revolução.
É sempre se reinventar...
É alto astral.
É transgressão.

É por isso que Ana é Ana
Ana, vem de humana...

Laura Limp


da série "poemas pessoais demais"
Fotografia de Ana Limp

O barco

Algo se debate em mim.
A janela fechada
e a boca se espanta assim.

Os sentidos,
a verdade,
os espíritos,
a confusão constante,
inquietante,
sem querer,
sem saber resposta.

O porto à espera do barco.

Se debate fora como dentro.
Com a força de um,
mesmo não sendo.
Como outrora.

O passado...
Sempre o passado
à espreitar, à vigiar,
à cobrar pela consciência dos momentos,
das escolhas, das dúvidas,
da certeza dos sentimentos.

Um ausente presente.
Um fantasma.

A arte revelando e relevando a vida.
A vida pertubando e perpetuando a arte.
Ciumentas e famintas uma da outra.
A outra ,
dentro de mim,
se debate.

Ei-lo que surge: O silêncio!
Silêncio gerador de palavras inapropriadas
tão próprias de mim
que ao escaparem num ruído,
sem sentido e sem controle,
na razão da conversa...
Se perdem no ar.

Então...
Se desfazem as frases
e ficam as palavras.

Soltas,
ao sabor do vazio.
Das prateleiras de sentidos.
As palavras.
Ao sabor de quem se dá o trabalho
de sentir as entrelinhas.
(E agora,
Tão sem gosto na minha boca.)

A proximidade do outro
Tão idealmente próximo,
Tão possível, tão tangível
e tão distante, ainda assim,
da minha alma.

Minha função no outro.
Um encaixe que só se encaixa em corpo.
Função de trabalhador, a minha.
Trabalhador de função no outro
que sequer me espera como barco,
no porto.

Logo,
em meio ao caminhar perdido,
meus passos hesitantes
escuto em mim.
Quem dera ecoassem à minha volta,
ensurdecendo, anunciando!!!

Retomo a poesia, então.

Com a autoridade de quem nunca cedeu,
por dentro.
A surpresa de quem nunca escreveu
por fora.
E a vontade de amante de nunca parar.
Continuar, hora após hora,
até a chegada do Sol,
com a compreensão de todos os meus silêncios...

...

A madrugada, amiga de anos e anos me abriga.
E me obriga o silêncio:
Não falar.

O céu vai clareando, devagar, gozando comigo.
O calor úmido já toca, de leve, minhas costas.
Das grandes questões, já não me importam as respostas.
Me importa o espírito suado,
e o sono calmo pós gozo,
que vem com o início do dia
e o passageiro fim de minha agonia.

Espero, como apaixonada
O próximo beijo das palavras.
Atordoada ainda, vibrando...
Uma saudade já me apertando
O nó definitivo na garganta.

O abraço apertado dou no silêncio.
Por que?
Porque ele sabe demais.

Laura Limp

Poema duplo ou O gole sarcástico

Eu reservo minhas sandices
para minhas inconstâncias
enquanto espero de gota,
o gole sarcástico
A devassidão.
Vontades supremas .
Paradoxos apenas .
Devaneios em vão .
O escárnio guardo
enquanto enlouqueço ,
enquanto permaneço escravo.
Doce desejo da espera ...
Ardente e inconsequente.
A alma dormente
finge saudar,embriagada,
aquilo que sente.
Revela-se acordada,
paralelamente.
O soneto se move numa dança lúcida.
Alcança.
Espera.
Mas não sente.
De fato ,Impera.
Imperam os sentidos.
A obscenidade da vírgula ,
que cada abstinência traz,
rompida,
em seu olhar.


Laura Limp e Letícia Karneiro

Cartas de uma ilustre desconhecida

Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 2005

Salve !

Minha amiga,

Você provavelmente não vai entender muito...quase nada. Talvez até entenda e que loucura boa será isso. Mas quem sabe...quem há de saber?
Que surpresas ordinárias e momentos sublimes nos reservam o novo dia. Hoje é um daqueles dias enevoados, com cheiro de chuva e terra e flor e tabaco no ar... Engraçado como nossos sentimentos podem ser guiados pelos sentidos... Como um cheiro pode conter tanta complexidade nas entranhas do nosso ser?
Continuo estupefata diante do fato de ser expectadora de mim mesma, camareira nos bastidores do meu próprio teatro. Me choca essa capacidade de ao mesmo tempo em que rezo num sussurrar alto pra algo, pra lá de grande, acima das roupas penduradas no varal, varando o teto, saindo lá no céu e acima e pros lados , imensidão... ouvir meus sussurros de terror estático e achar beleza nisso! Não com olhos vaidosos do sofrimento de quem se auto compadece , mas com a alma de quem sabe...simplesmente , que é momento de única verdade, que é momento de solidão real, que é compreensão de muitas poesias e muitas músicas e diversas pessoas e infinitas madrugadas...que é a dor dando sentido à palavra vida. Estranho isso.
Dia estranho.
Lembro de Lou S. ( como não lembrar ) ...” seja você agora ...” e penso que não tenho lugar nesse mundo. Mas isso é pretensão...então penso que sou como toda gente, mas também não sou. Queria ser, talvez. Então chego à conclusão ( e ela veste, muito formal que é, um véu acinzentado ) de que quero apenas e tão somente ser...em minha totalidade, e que pra isso não precisa muito, senão conhecer todas as minhas partes. Conhecer minhas partes, apresentá-las umas às outras, deixar que se conheçam, e que se entendam, ou não..., mas que existam sob a ègide do coração.
Coração é chama. Isso é real. Entenda como quiser... eu mesma vivo encontrando mil sentidos diferentes, e todos servem.
Imagens mil.
Zil.
Lhões.
Que cada parte minha seja lenha para este fogo.
Que cada parte minha seja...
Que cada parte parta .
E reparta.
Tudo isso é matéria, amiga... é material... É igual a M x C ao QUADRADO. Pensa nisso, seriamente, mas sem seriedade. Deixa o franzir do cenho pros que se auto-intilulam intelectuais.

Tenho aceitado meus medos, mesmo os mais bobos.
Embora esses não mereçam senão cuspe na cara.

Mas falemos de hoje.
Meu hoje começou ontem.
E chegou vestido de passado.
Meio cor de barbante do livro do Carlos Heitor Cony.
Uma noite ordinária de vinho ,
leitura de roteiros,
projetos imprecisos,
vai e vem de idéias ,
pessoas conhecidas e voilà !

Quando você pensa que assimilou uma pessoa...Ela se revela de repente outra! Coisa bonita isso. Pode ser um amigo, cuja característica marcante nunca aos seus olhos antes fôra revelada. Ou um inimigo, cuja humanidade subitamente se escancara pra você, sei lá.
Só sei que já havíamos nos apresentado, passou a freqüentar minha casa. Supostamente trabalharíamos juntos e eu aqui ...hum..... já tinha encaixotado a pessoa, colado etiquetas, arquivado na pasta de “ sei, conheço, é assim”. Como somos medíocres!Que bizarra capacidade de sermos pequenos. Entretanto é possível que sejamos assim para estarmos sempre nos surpreendendo , conosco e com os outros.
Chama-se Humano, o outro. Conheci-o ontem...embora ele já fizesse a realidade de tudo que disse antes. E ao nos despedir-mos ontem... que foi hoje , e que ainda o é... dissemo-nos : Prazer te conhecer ! Dissemo-nos de verdade, pois de fato, estávamos nos conhecendo naquele hoje.

Não antes.

Antes era carnaval.
Antes era comercial.
Antes era a casca do ovo.
Antes era sala de estar.

Foi muito rico, hoje, por causa desse encontro. Ele disse (depois de muitos cigarros, vinho, cerveja, muito Chico Buarque, muitas histórias, melodias, muita poesia, muitos Tons, Vinícius e Marias depois. Muito cinema, planos e contra campos, dois perdidos numa noite de chuva sem chuva e já dia...) ele disse: vou me apaixonar por você... já me apaixonei.
Logo , a babaquice do mundo superficial ( sempre "inocente", claro!) instaurou um ar de clima, sabe? Como se algo da pasta “ sei, conheço, é assim” pulasse e deixasse todos sem graça... Mas a gente compreendeu. Apesar de também respirar desse mesmo ar contaminado pelos achismos alheios, a gente compreendeu. Então ele teve que explicar , não , não é isso...blábláblá... e etc e tal...brincou de lá , brinquei de cá. Mas não era pra gente...
Era pro modus operandi do mundo...
Nós entendemos, sem sem gracice... o encontro de duas pessoas que podem se comunicar com o olhar... Se isso não é raro e digno de paixão... eu não sei o que é...
Não falo de amor ou tesão...sabe? São coisas maravilhosas, mas não se trata disso... é como encontrar pegadas outras numa praia que você julgava deserta , cujos últimos rastros , saudosamente, ficaram na lembrança , que mesmo breve, é saudosista demais, pois sabe da possibilidade de ficar , durante muito tempo, sem encontrar pegadas outras que não as suas próprias , ou de suas lembranças...

Bom , é tarde e temo já não ser tão clara como deveria...mesmo sabendo-me confusa quase sempre.

Beijos Zil.
Lhões.





Laura Limp



da série "correspondências que nunca trocamos"

Poema para Estamira

Vago na noite do meu universo
Beirada trasbordante do mundo que é meu
Caem estrelas na beira do mundo
E a louca...
Sou eu.


Laura Limp

No centro da tempestade

Uma tempestade de areia e fogo, você.
Fico cega.
Só enxergo contornos.

Fico louca.
E me aproximo.
Mal respiro.

No centro da tempestade, o perigo.
No centro da tempestade, me abandono.

Me queimo, e ainda me apaixono...

Laura Limp

da série "poemas secretos, curtos e bobinhos"

Maio 09, 2008

para Julia

Começando pelo presente,
(porque o futuro desconhece a gente
e porque é de fato
o melhor lugar tanto para se estar,
quanto pra começar) ,
eu começo assim:
voltando atrás no tempo, sim.
No tempo em que Julia
era só um nome próprio
e não o próprio nome
da minha filha Julia.

Escrevo agora sobre alguém que um dia
dentro de mim , foi crescendo ...
E que hoje , fora de mim , me faz crescer.
É com ela que descubro , todo dia ,
o que cada dia tem de diferente.
O que cada momento tem de especial.
O que realmente tem importância fundamental.
É com minha filha que aprendo sobre simplicidade ,
sobre troca , amizade ,
sobre o amor e a humanidade.

Cada conquista sua
reaviva em mim a chama
de também conquistar.
Porque tudo é grande
e tudo é novidade.
E os caminhos tantos são
quanto os sorrisos que ela me dá.
Que é preciso cair pra aprender a andar .
Que é necessário acreditar.
Que a gente deve se indignar!
E a coisa boa que é sonhar.
E que tempo é valioso
pra quem sabe aproveitar .
E que aproveitar o tempo
não quer dizer se matar de trabalhar,
e sim que o futuro depende
do que você faz do seu tempo no presente,
e não de quanto você conseguiu juntar.

Tudo isso e muito, muito mais,
ela me ensinou e ainda ensina.
E um dia...
quando a Julia me perguntar
como eu sei de tantas coisas?
eu vou poder dizer :
“ Aprendi com você .”


Laura Limp
Fotografia de Ana Limp

Basta um passo

Você é solitário.
O vazio,
que está refletido em tudo que você vê,
vem de ti
e se multiplica como um vírus
por tudo que você faz,
e contamina tudo que chega até você.
É a sua solidão, rapaz.
Sua e de mais ninguém.
Não adianta!
Todos os universos estão à distância de um passo.
As escolhas morais são ações , não discursos.
A eloqüência não passa de um truque.
Cadeados sem chave, todos eles.

Basta um passo.

Como um navio naufragando,
você arrasta pro redemoinho quem está mais próximo ,
mas acredite:
É melhor do que o vai e vem de estar ancorado,
que causa apenas enjôos.
É até mesmo melhor que a calmaria .
A calmaria enlouquece os homens quando com ela se habituam.
A calmaria desperta o suicida.
Rapaz, essa revolta toda, é escolha sua...

Basta um passo.

Essa solidão não vai te abandonar
e você nunca fará com que ele se vá.
Nunca.
É da sua natureza.
Mas não se orgulhe dela.
Você deve temê-la, e ela à você.
O assustador
é que vocês parecem companheiros de longa data...
tua solidão e você.
E rapaz...
Você parece gostar.

Laura Limp
(texto e fotografia)

Estranha moldura abstrata camada Memória

Vasculhando a memória
transito épocas,
passeio pessoas,
visito músicas,
revisito segredos,
remexo poesias.

Tenho os ponteiros do tempo
estáticos
na palma da minha mão sem idade.
Sinto que as lembranças têm
encerradas em si,
a precisão de nuvens...

Como através de uma janela empoeirada,
assisto sem impunidade as estradas de minha infância.
Vejo no ontem-agora
este filme revelado,
onde convivem pacificamente,
num estado de igualdade permanente ,
tanto estranhos quanto objetos.
Afetos e desafetos ocupando
com igual presença marcante
essa estranha moldura abstrata chamada memória.

Fazem parte dessa coleção imaterial
e de cheiro muito próprio,
palavras que queriam ser livros,
desenhos que queriam ser quadros.
Quadros que se moviam,
como os de Van Gogh.
Eternamente me olhando de canto de olho.
Enquanto eu,
não ousava desviar olhos,
nem por um segundo;
com o medo secreto de ofendê-lo
ao procurar suas orelhas...

A chuva
e todos os instantes em que sua presença
foi cheia de significado,
iluminando as ruas por onde passava,
encharcando os momentos.
Disfarçando lágrimas, espantando insônias ,
guiando escolhas e ainda
abraçando beijos apaixonados.

E há também,
em muitos outros cantos desse imenso quadro animado,
instantâneos ensolarados repletos de galinhas,
cachorros , gatos , patos ,
crianças, nomes, pedras , barro ,
abacateiros, colher e açúcar queimado,
melancias, árvores, bosques,
balanços, tombos
pernas de adultos
e mangas cor de rosa.

Há contudo, cantos obscuros,
Representando a ausência.
Seja ela conseqüência de um esquecimento inconsciente,
Ou uma representação consciente da escolha de esquecer.

Toco, provo e aprecio essa teia emaranhada
onde gotas de orvalho-imagens cintilam penduradas.

Tenho,
como minha tatuagem perpétua
tudo o que foi,
tudo o que é
e ainda o que será.
As marcas, uma a uma,
deixadas no que sou,
fazem de mim
um mapa de várias existências.

Laura Limp

Meu ponto de mutação

É o fogo da madrugada que cozinha minhas idéias,
que consome minhas entranhas,
que põe em estado de alerta minha alma buliçosa,
e que acelera a combustão de meus delírios.

É quando ferve o corpo
e o suor escorre pelos dedos,
transformando-se,
metamorfoseando-se em palavras,
em imagens devaneios,
que a poesia me acorda
e sonho.

É o calor da madrugada, meu ponto de mutação.
Laura Limp

O momento do abalo

E nossa realidade não passa de uma transposição
de nossos sonhos e pesadelos.
É quando cedem as paredes de nossas vontades,
que temos olhos pro mundo alheio.
Pro universo prostrado diante de nós.
Então percebemos que o deserto mora dentro
embora a terra escancare seus dentes pros céus.
Então percebemos que nem todos os lampiões
luminárias, velas e estrelas nos servirão de guia,
ou iluminarão nossos cantos escuros.
Porque um dia corroemos
com nossa falta de crença,
nossa falta de perseverança,
nossa incapacidade de silêncio,
a nossa casa,
que é um universo.
Da casa restou o solo, o chão.
Como a unir-se ao resto do espaço
numa irmandade seca.
As paredes ,
janelas abertas pro mundo,
já não podiam esconder aquela certeza roendo os ossos.
Aquele sentimento capaz de devorar
toda a carne, dilacerar cada músculo,
e ainda de beber toda o sangue,
como quem ferve água.
A certeza do fim
só é cruel pra quem não viveu.

Cruz.

Crucial.

Crise.

O momento do abalo.
Quando o corpo desaba
e a alma se compadece.
Quando o corpo desalma
e alma esquece das preces.

Laura Limp




para o trabalho gráfico "DESERTO" de Thiago Ristow

A menina que chegara até ali

Sentada na beirada da cama,curvada sobre seu medo,ela olha de relance o lençol manchado.
Imagens confusas e detestáveis,girando dentro de sua cabeça,confundem-se com a estampa do tecido gasto.Ela tenta ,apertando os dedos,lembrar-se de coisas bonitas.Tenta lembrar-se do rosto da mãe,sorrindo; e só se recorda da expressão amarga e submissa.Só se recorda, mesmo apertando os olhos ,mesmo fazendo toda a força desse mundo,da despedida à contragosto.
Lembra-se ,também ,da face suada do pai.Da pele enrugada...E uma nova enxurrada de pensamentos com cheiro de suor e sal lhe invadem a mente.
Não sem antes , atravessarem o corpo miúdo.E é então que se pergunta:

__Porque algumas lembranças têm cheiro e outras não?

Nessa hora se levanta , no susto. Bate a cabeça no estrado da cama de cima.Pensou que a porta fosse abrir...Riu, fazendo um carinho no galo que acabara de ganhar. E aprendeu que a dor faz a mente parar.

...


Que silêncio bom...Pensou que poderia dormir.Como seria bom fechar os olhos e simplesmente dormir, agora.
A vontade virou desejo.
Desejava imensamente.
Desejava com desespero.
Dormir.
Mas em algum canto dentro de si,o pavor tocava seu tambor e cantava uma canção de não-ninar.Uma canção de bicho papão cantar.
Foi quando, diante do espelho sem moldura,onde antes sua procura era por seu galo, que a menina se viu.E procurou dessa vez, naquele rosto assustado ...a menina que era.A menina que chegou até ali. Passou o dedo sobre a imagem mal refletida dos olhos e se achou extremamente feia. A menina que era, era bonita.
Desistiu de olhar pro espelho.Preferiu voltar pra beirada onde estivera sentada , parecia...
por toda sua não muito longa vida..
Na beirada.

Novo susto.
Com o sobressalto, com a tensão,o galo doeu. Sua mãe teria dito que ele estava cantando. Ressentida, decidiu não pensar na mãe.Preferiu olhar pra porta. Pra maçaneta que girava. Pro batente , que o padre careca chamava de lar. E pensou que nunca , nunca havia perguntado pro padre:

__Porque? Porque se chama lar?

Seu pai ralhava . Dizia:

__Pára com essa coisa de perguntar. Isso num leva a lugar nenhum.

Agora ela entendia tudo.
Provavelmente morreria sem saber. Mas nunca sem saber que na verdade,quando entrasse o homem por aquela porta, quando passasse o desconhecido por aquele “lar”,quando esse sujeito que a faria compreender nos sentidos porque ela se via e não se reconhecia, entrasse...
...ela morreria, sim.

Pelas mãos daquele homem morreria a menina que ela era.
Morreriam muitas lembranças bonitas.
Morreriam muitas perguntas também.
Morreria o galo e se calaria o tambor do pavor.
Se apagaria , junto com a luz do abajur ,o sorriso da mãe.
A
menina
que
chegara
até
ali,
morreria.



Sairia dali, outra.
Outra, que aprendeu que a dor
faz a mente parar.
Mas que a mente,
ainda assim,
pode fazer a dor dormir.

Laura Limp

* escrito pós "Anjos do Sol"

Boadrasta

Patrícia é minha boadrasta,
Boa amiga, confidente.
Pessoa necessária na vida da gente.
Um oceano de cultura...
Meu exemplo de matriarcado...
Paciência de vó!
A casa dela , pros netos,
É aventura.
Estantes de histórias...
Baú de brinquedos...
Contas e contos.
Mapas , fotos e ainda
Xícaras de chá.
Pra gente grande, pros amigos,
Família e agregados
Ela é a casa...
O convite.
O sorriso,
A conversa.
O colo...
Pra mim , ela é tudo isso.
E não tem tempo
Nem espaço
Nem circunstância
Nem fato
Que mude isso.

Laura Limp

para minha ex boadrasta
minha amiga Patricia

para Gustavo

Fiz mil rascunhos...
Queria dizer tudo... assim !
De uma vez só.

E talvez tivesse conseguido...
se não fosse você tão lindo,
verdadeiramente lindo.
Tão singular, único, especial...
Se você não fosse tão forte
e dono de uma inteligência
tão nobre e tão humana.
Se não fosse
ao mesmo tempo
simples e complexo.
Se não fosse tão companheiro ,
íntimo e amigo.
Se não fosse você o colo,
o abrigo.
O porto seguro , o vinho e o vício.
(como a música ...)
Se não fosse você
a beira do precipício.
Se não fosse o risco.
Se não fosse tão mutante.
Tão interessante.
Tão amado.
Se não fosse você esse amante
eternamente secreto e explícito.
Se não fosse você tão menino
e tão homem e tão sábio.
Se não tivesse você
esse senso de justiça,
essa dignidade inerente aos grandes homens,
essa ética e moral perdidas,
esse amor e prazer pelo trabalho.
Se não fosse você esse pai tão divertido ,
preocupado , carinhoso e bem humorado.
Esse eterno namorado,
esse ouvido atento ,
esse olhar sedento.
Se não fosse você
essa pessoa que faz falta ,
que modifica e se deixa modificar.
Se não tivesse você esse olhar.
Se não fosse teu esse sorriso.
Ai !Esse sorriso ...
Se teu beijo não fosse
esse horizonte macio,
esse encontro de céu e inferno ,
de terra e mar.
E se não fosse você escritor ,
poeta , ator , dramaturgo e diretor.
Artista por vocação,
dedicação e vontade.
Se nada disso você fosse ou tivesse...
talvez tivesse eu conseguido
me aproximar da tua verdade.


Laura Limp

da série "poemas pessoais demais"

Lacunas no espaço, onde se perde o pensamento

Tenho essa fome ...
Não é bem uma fome,
eu como, mas não sacia.
E tenho essa sensação,
mas não tenho provas.
Tenho essa aflição,
esses medos,
mas não faz sentido.
Tenho essa certeza dentro de mim,
mas tudo me convence do contrário.
Tenho esse avesso,
esse verme vivendo comigo
e sua existência é tão irreal quanto a minha.

Não sonho mais.
Deixo os sonhos pras crianças,
pros profetas
e pros analistas.
Acontece que a correnteza é tão incerta
como o é nadar pro norte.
Sempre pro norte.

Não creio em minhas próprias palavras
pois sei que minha moral é um ideal ,
logo, me sinto vazia.
Engraçado...
Os rompantes,
onde estão?
Onde foram parar?
Varridos talvez
pela maturidade,
quase oposto de vitalidade.
Maduro.
Quase, quase podre.
Morta.
Mas vou vivendo...
nada pior que dizer:
Vou indo, vou levando...
A gente não leva nada,
então pra quê tanto?

E é assim
que vou preenchendo
as lacunas de espaço
no tempo dos afazeres diários.
Pensamentos.
Pensamento recorrente em mim:
sou uma desconhecida.
Quase foragida.
E não somos todos?
Tento descobrir
o que é mais importante?
Qual é a prioridade
no meio desse caos ?
Como definir uma prioridade?
Farei o mais urgente,
mas nada urge.
O tempo sim,
o tempo urge,
ele ruge, mas somos surdos.
Ele dança , mas somos cegos.

Eu já mal sinto o gosto da comida.
Hora do almoço, hora do café, hora do jantar.
Mas a fome não pode cessar.
Ela precisa estar lá .
Ou sou eu que preciso dela?
Então eu devoro as pessoas.

Evito sair.
Não gosto de esbarrar com esses olhares ...
esses olhares... de inércia.
De acomodação.
Esses olhares de aceitação,
de apatia...de resignação.

Logo,
quando é inevitável
e me encontro na rua ,
cercada e só,
pego essa invenção diabólica
chamada telefone móvel ,
criada para que as pessoas não se sintam sós,
mas que as impede de estar na companhia dos outros,
e ligo pra alguém...
algum conhecido,
às vezes para algum desconhecido,
porque dá no mesmo no fim das contas...

Alô?
Tudo bem?
Quanto tempo?
Que que você está fazendo?
Engraçado...
Saudades.
Beijo.
Adeus.

É...

Mas chega de pensar sobre tudo isso.
Tenho que tomar um banho.
Tenho que alimentar alguém.
Tenho que me informar.

Tenho que atender o telefone,
porque alguém pode estar na rua ,
se sentindo só.

Laura Limp